Deadline: The clock is ticking!


Uma amiga pediu para que eu contasse como foi o evento, para ela poder fazer um trabalho da faculdade de jornalismo dela. Ela queria o relato de TUDO desde o começo até o fim. Coitada, esqueceu o quanto eu gosto de escrever. Mas cá está, o relato do dia que nunca esquecerei na minha vida. Vai além de uma propaganda e, sinceramente, eu não concordo com o produto patrocinado em questão, mas a proposta do #KeepWalking é maior que um produto e da ideologia em si eu sou a favor.

Vale lembrar que não revisei nada do que escrevi abaixo e boa sorte aos que quiserem ler tudo!

Bem, as coisas aconteceram bem rápido. Eu e meu colega de trabalho Pedro Barbosa (co-diretor do curte) vimos a notícia sobre o concurso e achamos muito interessante. Após ler o briefing completo, percebemos que na realidade o conceito não era apenas uma propaganda de um produto, mas a divulgação de algo maior, o que nos deixou muito mais empolgados para participar.

Tínhamos que seguir o conceito da propaganda anterior em que era mostrado o Brasil como um gigante que estava adormecido, mas acordara. Dessa vez a ideia era mostrar o progresso desse Brasil e de brasileiros que colaboram para isso.

Ficamos pensando no que poderíamos abordar e chegamos à conclusão de que a arte seria o melhor caminho. Lembramos rapidamente do meu ex-professor de desenho, o querido Paulo PT Barreto, que me ensinou em suas aulas muito mais que desenhar, mas a deixar a arte ser livre, a procurar evoluir sempre e se permitir experimentar.

Nada do que retratamos então no vídeo fugiu disso. Ligamos para o professor, que aceitou participar instantaneamente. Decidimos inicialmente não comentar sobre valores do concurso e nem nada do tipo, porque buscávamos a maior sinceridade o possível, então marcamos nada mais que uma conversa filmada.


Um ou dois dias depois estávamos lá em sua casa, com nossa DSLR e nossa enorme equipe formada por duas pessoas. Passamos o dia conversando, falamos de arte, de vida, de liberdade e foi mais uma aula desse grande professor. Vimos muitas de suas obras e minha admiração por ele ficou ainda maior. As frases ouvidas no curta nada mais são que um resumo de nossa conversa, nada de texto ou frases prontas, apenas um registro documental do que foi nosso dia. Fechamos o dia com boas risadas e um bom sorvete para no dia seguinte começar a correria.


Tínhamos cerca 3 dias para editar, finalizar e enviar tudo e mais de duas horas de gravação que deviam se tornar no máximo 1 minuto. No dia seguinte passamos tudo para o notebook no Pedro, assistimos e começamos a discutir como seria a montagem. Procuramos uma música que tivéssemos direitos autorias e começamos a colocar tudo na timeline.


Resolvemos nos encontrar no sábado para, teoricamente, finalizar, então marcamos de nos ver em um SESC próximo para ambos. Almoçamos por lá e começamos a parte mais difícil da edição. Lado a lado sempre, desde o briefing até o envio, nenhuma alteração era feita sem que ambos concordassem com ela.


Eis que nos surgiu o primeiro problema: bateria fraca. Ligamos o notebook na tomada e quase instantaneamente surgiu um segurança nos pedindo para tirar. Ele alegou que a estrutura do local não aguenta os computadores de todos ligados, então tínhamos que desligar. “Se todos ligarem, a energia pode cair, queimar o computador e você pode nos processar”. Não havia o que dizer, eram regras locais e tínhamos que respeitar. O Pedro aidna tentou falar com um rapaz de cargo mais alto por lai, mas também não adiantou. Tudo isso nos consumiu muito tempo útil e acabamos decidindo sair e procurar outro lugar.


O segundo grande problema surgiu quando vimos que não havia nenhum lugar ali perto para carregar o notebook e depois de ficar certo tempo procurando, acabamos decidindo entrar em um boteco. Havia muita gente chegando, muito barulho e muita bagunça, mas também havia uma tomada e os atendentes foram muito simpáticos por nos deixar ficar lá trabalhando.


Pedimos algumas coisas para comer também e continuamos editando até dez e meia da noite dentro do bar. Terminamos o corte e dissemos “amanhã é só finalizar e enviar, vai ser rápido”. Lembramos que no Centro Cultural Vergueiro havia locais bons para reuniões, estudo e que estaria aberto no domingo. Nos encontramos lá no domingo então.


O que era para ser apenas uma finalização acabou nos tomando o dia inteiro. Incrível como é difícil chegar a um produto que nos agrade quando a produção é inteira nossa! Sempre víamos algo a ser alterado e abríamos o briefing a cada mísera alteração para termos certeza de que estávamos no caminho certo.


Estávamos quase no fim quando precisei buscar algumas referências, principalmente com relação ao final obrigatório com a indicação de segurança da CONAR. Acontece que é quase impossível utilizar a internet lá e nós tínhamos que enviar o arquivo ainda naquele dia. Não me lembro que horas eram, mas lembro que ainda não havíamos comido nada o dia inteiro. Começou a me bater o desespero. Nenhuma página abria e eu sentia como se todo o trabalho que havíamos tido iria por água abaixo.


Decidimos ir para a minha casa, que fica bem longe dali e paramos para comer antes. Ficamos nos questionando se estávamos mesmo no caminho certo, se conseguiríamos competir com os outros quarenta e tantos concorrentes que já haviam enviado seus vídeos, se haviam produtoras grandes envolvidas, mas no final decidimos que o melhor era fazer um trabalho bem feito, sem se preocupar com o prêmio ou qualquer outra coisa, apenas para que nós pudéssemos ter motivo para orgulho próprio do produto final.


Chegamos em casa e minha família estava toda lá. O tempo estava passando e ainda tínhamos que equalizar o som, gravar o aviso, renderizar, exportar e fazer upload! Pensei que não fosse dar tempo, mas o Pedro foi um pouco mais otimista. Depois de horas e horas editando outras horas e horas de gravação, finalmente terminamos. Não estava acreditando. Tanto trabalho para um minuto de vídeo e finalmente estava pronto!


Assistimos juntos pela última vez antes de enviar. Gostaríamos, claro, de poder fazer muitas alterações ainda, mas já não havia mais tempo. Acho que nunca ficamos 100% satisfeitos com um produto nosso, mas de certa forma isso é bom e é exatamente o que o Paulo disse na entrevista: o importante é ter prazer em fazer e ter vontade de fazer o próximo.


Respiramos fundo e enviamos. Não sabíamos quando viria a resposta, não sabíamos quem eram os concorrentes e, sinceramente, não sabíamos direito quem assistira ao nosso vídeo, mas estávamos felizes por estar ali participando e mais ainda por ser um trabalho cuja mensagem principal era justamente o âmbito de liberdade.


Passados alguns dias, recebemos a notícia de que precisaríamos enviar o vídeo novamente, porém com a legenda em inglês (enviada por eles), para que os jurados internacionais pudessem avaliá-lo. Meu coração parou por um momento. “Será que passamos da primeira fase?”, mas não podíamos ser tão otimistas. Enviamos! E não contei para ninguém. Tive medo de me contar vitória antes do tempo e me decepcionar. Não lembro direito como, mas encontramos todos os vídeos participantes do concurso pouco tempo depois. Confesso que foi um momento de choque inverso. Vi ali vídeos de uma qualidade exepcional. “Pedro, esquece, a gente não vai ganhar esse concurso” foi a única coisa que consegui falar para ele. Havíamos visto tantas vezes o nosso trabalho que já conhecíamos cada pixel errado nele e não conseguíamos mais vê-lo como a obra poderosa que nos orgulhávamos antes.


Dentro de tantos trabalhos bons, analisei os melhores e tentei aprender o que eles fizeram para uma qualidade tão boa. Alguns eram produtores independentes, mas muitos eram produtoras maiores, com trabalhos já reconhecidos anteriormente e pensei que não tínhamos chance.


Para nossa surpresa, alguns dias depois recebemos a notícia de que nosso vídeo foi um doa vencedores! Fiquei boquiaberta. Depois de ter perdido as esperanças frente a vídeos tão bem feitos, me supreendo descobrindo que os jurados escolheram o nosso como um dos melhores! E mais ainda quando fui realmente notar quem eram os jurados: Tania Cesar, Diretora de Marketing da Diageo (empresa detentora de Johnnie Walker), Alexandre Gama, presidente e diretor mundial de criação da NeoGama/BBH, Fabio Coelho, presidente do Google e nada mais, nada menos que Fernando Meirelles, cineasta mundialmente reconhecido e um dos meus cineastas nacionais preferidos.


As semanas que se seguiram foram insanas, mais documentos, autorizações, registros de obras, divulgações e finalmente o evento. Um dia antes do evento já recebi uma surpresa enorme: um dos blogs que acesso há muito tempo e admiro postou um link com o nosso curta. Fiquei extremamente feliz quando vi que o Âmbito de Liberdade estava no Amigos do Fórum e já estava repercutindo na internet! Mais surpresa ainda tive quando, ao chegar no evento, as primeiras pessoas que vi foram justamente os donos do blog: Luide e Camila, que me receberam super bem e me parabenizaram pelo trabalho.


Depois disso foi tudo como em um sonho. Pessoas que haviam assistido ao nosso trabalho e não nos conheciam, mas queriam nos parabenizar, programas de televisão pedindo entrevistas, fotos, luzes e câmeras para todos os lados. Não sei quando algo semelhante acontecerá novamente na minha vida, mas confesso que não será uma tarefa fácil a de acostumar com esse tipo de exposição. É mais difícil falar sobre um trabalho do que fazê-lo efetivamente. Apesar de todas as dificuldades, fazer filmes é nossa vida. Seja um curta como esse ou um longa documental ou um clipe experimental, é isso que nos dá prazer. Mais que isso, sinto que nasci para transmitir para o mundo as ideias que eu tenho, para debater, ouvir opiniões e espalhar aquilo que eu considero bom, como é o conceito de continuar caminhando da proposta em questão. Alguns escolhem escrever como melhor maneira de expressão e eu escolhi o audiovisual. Talvez por ser minha área de maior segurança, por conhecer o terreno que estou pisando mais do que qualquer outro, mas ainda assim o objetivo seria o mesmo em outra mídia e o reconhecimento, além da possibilidade de debate com as pessoas, foi algo prazeroso de tal nível que nunca conseguirei ilustrar em palavras. Talvez em um filme, algum dia, quem sabe.


O ápice da situação provavelmente foi ver Fernando Meirelles explicar o motivo de ter escolhido o nosso curta. Entrei em choque naquele momento e o que me deixou mais feliz foi porque ele escolheu o nosso curta pelos exatos motivos que nós temos orgulho dele. Pela mensagem, pelo personagem, pela arte e liberdade juntas. Ele captou a essência e a sensação de objetivo alcançado é inigualável a qualquer outra.


O discurso dele pode ser visto aqui, no vídeo que meu pai gravou lá do fundo da sala de cinema do Cinemark Iguatemi no inesquecível dia 06 de Junho de 2013. Tudo parece surreal até agora, da mesma forma que pareceu no dia. Estava cercada por pessoas que sempre me apoiaram e por pessoas que sempre admirei, todas assistindo a algo que eu fiz na tela de um cinema. Acho que nunca vai realmente cair a ficha de que isso aconteceu e no meu pequeno discurso de agradecimento não acredito ter conseguido colocar nem metade do que eu estava sentindo no momento. Deitei a noite e pensei “será que hoje foi real?”, mas no dia seguinte lendo todas as reportagens, comentários e fotos do evento pude ter certeza de que não estava sonhando.


Ainda hoje recebo mensagens de amigos dizendo que viram meu curta no cinema antes do filme e ainda é inexplicável a sensação que isso me traz.


Várias vezes, principalmente nesse ramo de audiovisual, nós nos deparamos com certas barreiras que quase nos fazem desistir de tudo, mas todo essa situação e estar lá, num evento como aquele, cercada por pessoas que sempre me apoiaram e por pessoas que sempre admirei, é a maior prova que eu poderia ter de que devemos sempre “continuar caminhando”.  Serei eternamente grata a essa oportunidade e a todos que estiveram comigo, direta ou indiretamente, colaborando para que isso se tornasse real. Guardarei para sempre essa história na memória e a utilizarei para ter forças para continuar evoluindo e para ter mais dias surreais como esse.”


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